Discriminação em escala de folgas gera condenação trabalhista por homofobia

A diferença na forma de organizar folgas e intervalos entre um casal homoafetivo e casais heterossexuais é irregular e gera a obrigação de indenizar por danos morais.

Com esse entendimento, a 3ª Turma do Tribunal Regional do Trabalho da 10ª Região (DF/TO) reconheceu a ocorrência de discriminação por orientação sexual no ambiente de trabalho. O julgamento resultou na condenação da empresa ao pagamento de indenização, além da manutenção da rescisão indireta do contrato — o acórdão reformou parcialmente a sentença da primeira instância.

O caso teve origem em uma ação trabalhista apresentada por uma empregada que alegou ter sofrido perseguição e tratamento discriminatório em razão de seu relacionamento com outra trabalhadora da mesma empresa. Entre os fatos relatados, estava a impossibilidade de as duas usufruírem juntas os períodos de intervalo e os dias de folga. Na primeira instância, o juízo negou o pedido de indenização por discriminação. 

A trabalhadora, então, recorreu ao TRT-10. No recurso, sustentou que a prova oral demonstrava tratamento diferente daquele dispensado a empregados heterossexuais que também mantinham relacionamentos no estabelecimento.

Violência velada

Ao analisar o caso, a relatora do recurso, juíza convocada Ana Beatriz do Amaral Cid Ornelas, destacou que situações de discriminação nem sempre são acompanhadas de manifestações explícitas de preconceito e raramente se apresentam mediante declaração expressa de sua motivação.

A magistrada observou que a análise deve considerar “o contexto em que os fatos ocorreram, o tratamento dispensado a pessoas em situações equivalentes e a ausência de explicação objetiva para determinada diferenciação”.

No caso, duas testemunhas relataram que a trabalhadora e sua companheira não tinham intervalos ou folgas coincidentes. Uma delas, que havia exercido função de chefia, afirmou que um casal heterossexual que trabalhava no mesmo estabelecimento tinha intervalos e folgas nas mesmas ocasiões. Outra testemunha também relatou coincidência de horários de intervalo e dias de folga em outro casal heterossexual. 

Para a relatora, os depoimentos demonstraram uma diferença objetiva no tratamento. A empresa, embora tivesse acesso às informações sobre jornadas, funções e escalas, não apresentou uma justificativa relacionada às necessidades do serviço.

“A questão juridicamente relevante não é apenas saber se alguém declarou verbalmente preconceito, mas se empregados em situações comparáveis foram submetidos a tratamento diverso e se há fundamento objetivo capaz de explicar essa diferença”, pontuou Ana Beatriz Ornelas. “A discriminação, entretanto, foi reiterada e estava inserida na própria organização do trabalho, matéria sujeita ao poder diretivo empresarial.”

No entendimento da relatora, a gravidade da situação não estava apenas no fato de a trabalhadora não poder almoçar ou folgar ao lado da companheira. A diferença estabelecida pela empresa atingia a própria forma como os relacionamentos eram tratados no ambiente profissional. De acordo com ela, a atitude da empregadora introduziu uma distinção entre relações afetivas baseada na orientação sexual.

Com o reconhecimento da discriminação, por unanimidade, o TRT-10 condenou a empresa ao pagamento de R$ 20 mil a título de danos morais. Com informações da assessoria de imprensa do TRT-10.

Clique aqui para ler o acórdão
Processo 0000063-75.2024.5.10.0003

O post Discriminação em escala de folgas gera condenação trabalhista por homofobia apareceu primeiro em Consultor Jurídico.

Projeto cria classificação etária detalhada para desenhos animados

O Projeto de Lei 2452/26, em análise na Câmara dos Deputados, torna obrigatória a classificação de desenhos animados e de animações digitais por faixa etária.

As normas valerão para produções exibidas na televisão, no cinema, em plataformas de streaming e nas redes sociais.

O texto define regras de conteúdo para cada faixa etária e estabelece obrigações para plataformas digitais que oferecem produções infantis.

As faixas específicas para a primeira infância são:

  • menores de 2 anos: não haverá classificação de conteúdo recomendada para essa faixa. As produções destinadas a esse público deverão apresentar um alerta sobre os riscos do uso de telas por bebês, com base em orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Sociedade Brasileira de Pediatria.
  • de 2 a 4 anos: o conteúdo deverá ser assistido com supervisão dos pais ou responsáveis. As produções deverão ter finalidade educativa, narrativa lenta, ausência de violência e estímulos sensoriais moderados.
  • de 4 a 6 anos: a supervisão dos pais ou responsáveis será recomendada. Serão permitidos conflitos leves, desde que tenham solução construtiva, cooperativa e pacífica.

Para crianças de até 6 anos, o projeto proíbe:

  • violência física, situações de perigo iminente, ameaças e cenas de pavor;
  • sequestro;
  • morte;
  • humilhação e bullying entre personagens;
  • conteúdo de conotação sexual, sexualização de personagens infantis ou piadas ou insinuações de caráter sexual; e
  • uso de constrangimento ou discriminação para provocar humor ou desenvolver a história.

Também serão proibidos recursos que possam causar excesso de estímulos, como mudanças de cena com duração inferior a 3 segundos, sons estridentes, flashes luminosos intensos e padrões visuais repetitivos ou intensos.

Classificação por faixa etária
O texto elimina o uso do selo genérico “Livre para todos os públicos” nas animações infantis. Cada produção deverá receber uma classificação específica de acordo com a faixa etária.

Autor do projeto, o deputado Dr. Ismael Alexandrino (PSD-GO) diz que o objetivo é orientar pais e responsáveis sem restringir o acesso às produções culturais.

“A medida não constitui censura nem restrição de acesso. A classificação indicativa tem caráter exclusivamente informativo e orientativo. Seu objetivo é capacitar pais e responsáveis para escolhas conscientes, e não substituir a autoridade parental”, afirma.

Regras para plataformas digitais
Pela proposta, plataformas digitais e serviços de vídeo sob demanda, como as plataformas de streaming, ficam obrigados a oferecer gratuitamente ferramentas de controle parental.

Essas empresas deverão, ainda, impedir que seus sistemas de recomendação indiquem à criança animações classificadas para idade superior à cadastrada em seu perfil.

Sanções e prazo para adaptação
O descumprimento das regras poderá levar a sanções administrativas e multas. Os valores arrecadados serão destinados ao Fundo Nacional da Criança e do Adolescente.

As plataformas e as produtoras terão 180 dias, a partir da publicação da futura lei, para se adaptar às novas exigências.

Próximas etapas
O projeto será analisado, em caráter conclusivo, pelas comissões de Comunicação; de Previdência, Assistência Social, Infância, Adolescência e Família; de Finanças e Tributação; e de Constituição e Justiça e de Cidadania.

Para virar lei, o texto deve ser aprovado pela Câmara e pelo Senado.

Saiba mais sobre a tramitação de projetos de lei

https://www.camara.leg.br/internet/agencia/infograficos-html5/riscos-exposicoes-excessiva-telas-primeira-infancia/index.html

Fonte: Câmara dos Deputados

Aluguel recebido por área comum deve ser repartido entre condôminos

A 20ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça de Minas Gerais decidiu que os valores arrecadados com a locação exclusiva de uma área comum de um condomínio residencial devem ser distribuídos proporcionalmente entre os proprietários das unidades habitacionais. Com isso, a renda obtida deve ser dividida entre os condôminos.

O processo teve origem em uma ação de reparação de danos movida por duas proprietárias de apartamentos do edifício.

Segundo as moradoras, houve apropriação indevida dos rendimentos gerados pelo aluguel de uma quitinete e de um barracão residencial que, nos autos, foi descrito como a “casa do zelador”. A quitinete estava no subsolo, enquanto o barracão ficava nos fundos do terreno.

O juízo da Comarca de Patos de Minas (MG) acolheu o pedido inicial e condenou o espólio do réu a restituir a cota-parte das autoras correspondente aos aluguéis recebidos. A sentença reconheceu que o barracão e a quitinete não eram unidades autônomas pertencentes ao réu, mas sim áreas comuns.

Erro da prefeitura

O espólio recorreu, argumentando que as propriedades eram exclusivas do antigo construtor, pois haviam sido edificadas antes mesmo da construção do prédio. Conforme explicou, a inclusão dessas estruturas como áreas de uso comum no regimento do condomínio e no registro do imóvel decorreu de um erro administrativo da prefeitura. O espólio alegou, ainda, que as compradoras, ao adquirirem as unidades, não estavam pagando por essas construções, e que, após acordo judicial que desocupou o imóvel, exigir o repasse de aluguéis configuraria enriquecimento sem causa.

O relator do recurso, juiz convocado Christian Gomes Lima, manteve o entendimento de que a renda obtida com a utilização de área comum deve ser repartida entre os condôminos, na proporção das frações ideais, conforme os artigos 1.314, 1.319 e 1.335 do Código Civil.

O magistrado deu parcial provimento à apelação para reformar a sentença quanto aos critérios da liquidação, determinando que o cálculo observe o período de titularidade das autoras, a efetiva ocorrência de locações, o prazo prescricional e o acordo já celebrado em ação cautelar anterior.

“Importante ressaltar que os registros cartorários têm fé pública e, naqueles relacionados ao edifício condominial e às próprias unidades das condôminas apeladas, há expressa menção no sentido de que a ‘casa do zelador’ e o kitinete estão inseridos em área de uso comum, inviabilizando o uso exclusivo do condômino proprietário da unidade 201, o Espólio apelante”, concluiu o relator. Com informações da assessoria de imprensa do TJ-MG.

Clique aqui para ler o acórdão
Processo 1.0000.26.096642-9/001

O post Aluguel recebido por área comum deve ser repartido entre condôminos apareceu primeiro em Consultor Jurídico.

Confusão patrimonial na jurisprudência do Carf: ‘Eine große Konfusion’

Recebemos com muita tristeza a notícia do trágico e precoce falecimento de Márcio Chaer, fundador e diretor da revista eletrônica Consultor Jurídico. Sua liderança tornou o portal uma referência de imprensa especializada e um canal qualificado de disseminação de ideias, e sua generosidade levou à criação desta coluna, nos idos de 2018, quando crescia a atenção da sociedade para com os julgamentos no Carf.

Márcio deixa um legado de jornalismo sério e de inegociável defesa do Estado democrático de Direito. Sua partida deixa uma lacuna perene e, nesta oportunidade, nós, colunistas, manifestamos nossos sinceros pêsames aos familiares de Márcio e a todos os colegas da ConJur.

***

Introdução

Alguns temas jurídicos têm o condão de perpassar diferentes controvérsias, de modo a transformar um mosaico de questões aparentemente desconexas em uma tessitura intrinsecamente conectada e reciprocamente implicada. Um deles é a figura da “confusão patrimonial”, caracterizada, em síntese, pela inexistência de autonomia patrimonial entre pessoas distintas.

No âmbito tributário, esse instituto atravessa questões as mais distintas, de sujeição passiva à base de cálculo, a respeito das quais pretendemos, na coluna de hoje, expor a conexão existente (mas, às vezes, ignorada) e os reflexos dessa situação jurídica sobre múltiplas discussões no âmbito do Carf.

Confusão patrimonial – há um conceito tributário?

Apesar de, recentemente, a LC 214/2025 utilizar essa expressão em seu artigo 24, V, “b”, não a definiu, inexistindo, até hoje, uma definição de “confusão patrimonial” no Direito tributário.

O termo é haurido legislativamente do artigo 50 do Código Civil, que definia o abuso da personalidade jurídica em função da ocorrência de confusão patrimonial, a fim de estender “certas e determinadas” obrigações ao patrimônio de sócios/administradores, para alcançar as situações em que a separação patrimonial inerente à segregação da personalidade jurídica deixa de corresponder à realidade.

A disposição legal evidencia que a confusão patrimonial tem alcance limitado – as pessoas envolvidas seguem existindo separadamente, para todas as demais obrigações. Aqui há um primeiro ponto de contraste, pois no Direito tributário não se costuma fazer essa limitação objetiva do alcance da confusão, aplicando-a a todas as relações jurídico-tributárias.

Posteriormente, a Lei nº 13.874/2019 alterou o artigo 50 do CC para trazer uma definição legal de confusão patrimonial (§2º) como “a ausência de separação de fato entre os patrimônios”, caracterizando-a por: 1) cumprimento repetitivo pela sociedade de obrigações do sócio ou do administrador ou vice-versa; 2) transferência de ativos ou de passivos sem efetivas contraprestações, exceto os de valor proporcionalmente insignificante; e 3) outros atos de descumprimento da autonomia patrimonial. Adicionalmente, o § 4º esclareceu que a mera existência de grupo econômico, sem a presença dos requisitos legais, não autoriza a desconsideração da personalidade da pessoa jurídica.

Apesar da clareza definitória, o uso do termo na jurisprudência do Carf é tudo menos homogêneo. Identificamos pelo menos quatro sentidos distintos em que o termo é utilizado.

O primeiro é aderente ao conceito civil, abrangendo as situações em que não há autonomia patrimonial, caracterizadas pelo compartilhamento informal de recursos entre empresas, pagamento reiterado de obrigações alheias, compartilhamento de serviços sem contraprestação etc. (e.g. Acórdãos 1201-007.267 e 9202-011.166). Nesses casos, a ausência de separação patrimonial é utilizada como fundamento para caracterização do “interesse comum”, para fins de sujeição passiva solidária das pessoas envolvidas.

O segundo diz respeito mais à inexistência de uma autonomia operacional, sendo caracterizada pelo compartilhamento de ativos, de funcionários/prestadores, de endereço etc. Aqui, a ausência de autonomia operacional é fundamento para justificar a consideração das empresas como uma unidade, ainda que elas tenham separação patrimonial formal (e.g. Acórdãos 1002-004.210, 1201-004.473, 1301-002.694 e 1401-005.274). A expressão “confusão patrimonial”, nesses casos, é um rótulo para imputação da existência de simulação na criação de uma ou mais empresas – o que se mostra problemático, visto que aquela é uma situação lícita, enquanto esta, ilícita.

O terceiro se relaciona à demonstração da existência de uma interdependência operacional e unidade gerencial entre as pessoas jurídicas. Nesses casos, a “confusão patrimonial” é utilizada como conceito intermediário para qualificar a existência de “grupo econômico de fato”, que por sua vez autoriza a solidariedade tributária, com fundamento no artigo 30, IX, da Lei nº 8.212/91 (e.g. 2302-004.615 e 2102-003.998). Essa construção é problemática, pois mistura os conceitos de “confusão patrimonial” e “grupo econômico”, distintos entre si.

 O quarto, por sua vez, tem um sentido absolutamente distinto: não se refere ao artigo 50 do CC, e sim ao artigo 381, que trata da confusão como meio de extinção das obrigações quando se reúnem na mesma pessoa as qualidades de credor e devedor. A expressão é usada no julgamento de casos de amortização fiscal de ágio, quando se discute a incorporação entre sociedade investidora e investida, como gatilho do direito de aproveitar o ágio pago (e.g. Acórdãos 1302-007.300, 9101-002.960).

Como se vê, a ausência de um conceito de “confusão patrimonial” no Direito Tributário não implicou a adoção integral daquele do Direito privado, mas sim a construção de vários “conceitos”, atrelados a situações normativas distintas – que serão analisadas a seguir.

Confusão patrimonial e interesse comum

A presença de “interesse comum” é essencial à solidariedade tributária do artigo 124, I do CTN, caracterizada por uma pluralidade de sujeitos que tenham relação pessoal e direta com o fato gerador da obrigação tributária – é o atributo daqueles que compartilham o mesmo polo da situação que constitui o fato jurídico tributário, a exemplo dos condôminos, que têm “interesse comum” na propriedade.

Há posição consolidada no sentido de considerar a confusão patrimonial como modo de caracterização do interesse comum.

Uma das fórmulas usuais é aquela do Acórdão 1102-001.301, segundo o qual a confusão de esferas patrimoniais configura hipótese típica do artigo 124, I. O Acórdão 1301-003.472, de outro giro, sistematizou o raciocínio em outros termos, ao apontar um interesse comum “indireto”, quando houver confusão patrimonial ou benefício decorrente de fraude, sonegação ou conluio (o que, em nosso entender, é interesse econômico). Por fim, outra linha recorrente considera que. na hipótese de confusão patrimonial, haveria uma unidade patrimonial entre os sujeitos passivos, razão pela qual estaria caracterizado o seu interesse comum em relação a todos os fatos geradores que tenham como característica o ingresso ou acréscimo nesse patrimônio.

Todas essas linhas nos parecem ter em comum uma tentativa de estabelecer uma sujeição passiva consolidada entre todos os sujeitos passivos que estejam em situação de “compartilhamento patrimonial”, independente da sua coparticipação no fato gerador ou no ilícito realizado. Esse ponto é digno de atenção, pois em vez do alcance restrito da confusão patrimonial – sobre determinados atos – tem-se uma verdadeira dissolução da personalidade para fins tributários, independentemente da eventual conexão da pessoa jurídica em confusão com o fato gerador específico autuado.

Confusão patrimonial e grupo econômico

Confusão patrimonial e grupo econômico aparecem entrelaçados em diversos julgados, mas com variações, a depender do tributo sob julgamento.

Nos julgamentos da 1ª e 3ª Seções, é comum que a existência de grupo econômico de fato seja um dos elementos indiciários utilizados como fundamento para a configuração de uma situação de confusão patrimonial, com a finalidade de qualificar o interesse comum, para fins de solidariedade ou para exclusão do Simples Nacional (e.g. Acórdão 1001-002.999).

Na 2ª Seção, por sua vez, o raciocínio costuma ser o contrário – já que a existência do grupo, per se, é suficiente para fins de instaurar a solidariedade. Nesses casos, aponta-se a falta de autonomia patrimonial entre empresas para, daí, concluir pela existência de um grupo econômico (e.g. ac. 2402-012.918).

Não obstante, há situações em que tais conceitos são, pelo menos parcialmente, incompatíveis: a visão da confusão patrimonial como uma unidade subjetivo-econômica (mencionada acima) possui uma compatibilidade limitada com o conceito de grupo econômico (mormente nos casos em que se considera que a confusão, para fins tributários, não tem alcance limitado a determinados atos específicos). A primeira situação pressupõe a diluição das fronteiras que separam dois patrimônios, enquanto o segundo pressupõe alteridade entre os sujeitos, ainda que sob direção comum.

Confusão patrimonial e glosa de despesas

Outro reflexo relevante é a glosa de despesas entre empresas ligadas, quando constatada a existência de confusão patrimonial entre elas. Nesses casos, é interessante observar que a confusão não figura como fundamento autônomo da glosa, mas sim como argumento para sustentar que o gasto não era necessário à atividade, nos termos do artigo 47 da Lei nº 4.506/64 (artigo 311 do RIR/2018), ou como indício de que a operação que gerou a despesa teria sido simulada.

Um exemplo da primeira vertente é o Acórdão 1002-004.283, no qual o contribuinte mantinha contrato de mútuo sem encargos em favor da controladora e, ao mesmo tempo, pagava juros a ela em razão de Cédula de Produto Rural financeira. O voto vencedor viu nesse fluxo uma confusão patrimonial que afastava a necessidade da despesa e tratou os juros como liberalidade, citando os Acórdãos 9101-002.807 e 1002-003.869, que adotaram tese idêntica sobre empréstimos onerosos simultâneos a repasses gratuitos.

Na segunda vertente, a confusão patrimonial aparece associada à simulação, como no Acórdão 1202-001.139, em que se sustentou que uma empresa do lucro presumido fora criada apenas para gerar despesas para a empresa do lucro real, com base em elementos indicativos de confusão patrimonial.

Observe-se que nessa discussão das glosas, a confusão patrimonial serve de elemento indiciário de outros parâmetros para controle da fiscalização, quais sejam, a ausência de necessidade da despesa ou a sua simulação. Todavia, enquanto elemento de suporte, a confusão patrimonial não é condição suficiente para nenhuma das justificativas das glosas acima, devendo ser necessariamente suportada por outros elementos probatórios.

Aqui, trata-se de um ajuste unilateral e limitado – considerando que a operação que gerou a despesa possui necessariamente dois polos (quem gastou e quem recebeu) – diferentemente do próximo item.

Confusão patrimonial e apuração consolidada

A segregação de atividades em mais de uma pessoa jurídica é admitida pelo Carf, mesmo que gere economia tributária. Todavia, ela é desconsiderada quando simulada, hipótese em que as receitas das empresas segregadas artificialmente são tributadas de forma consolidada em apenas uma delas, com fundamento no artigo 149, VII, do CTN (e.g. Acórdãos 9101-002.397, 1101-001.932 e 1102-001.952). Nesses casos, a confusão patrimonial é utilizada como fundamento para caracterizar a simulação na criação de diversas pessoas jurídicas.

Diferentemente dos casos em que ocorre apenas a glosa das despesas, aqui o ajuste deve ser bilateral e amplo, pois não deve se limitar apenas a consolidar as receitas e despesas das empresas em confusão patrimonial, mas também deve-se neutralizar os efeitos das operações incorridas entre elas. Ou seja, aqui não há que apenas se glosar a despesa da compradora, mas também excluir a receita reconhecida na vendedora, como decorrência da consolidação – realizar apenas uma dessas operações, nesses casos, é um evidente erro de apuração que compromete a validade da autuação fiscal.

Essa consolidação, decorrente da acusação de confusão patrimonial, deve alcançar quaisquer transações ocorridas entre as empresas, que tenham gerado reflexos tributários, incluindo, por exemplo, pagamentos entre elas cuja causa não tenha sido identificada, que ensejariam a cobrança do IRRF de 35%. A confusão patrimonial e a consolidação eliminam a alteridade entre pagador e beneficiário exigida pelo artigo 61 da Lei nº 8.981/95, de modo que o pagamento passa a constituir uma movimentação interna a uma mesma unidade patrimonial.

Conclusão

Na jurisprudência do Carf, o tema da “confusão patrimonial” faz jus ao seu próprio nome, caracterizando-se, na expressão que se tornou célebre na fala do ministro Gilmar Mendes — com perdão da redundância —, como eine große Konfusion.

A ausência de uma definição tributária e o descolamento parcial em relação àquela existente no Direito privado fizeram com que o termo ganhasse múltiplos contornos nos julgamentos administrativos – muitos relativamente incompatíveis entre si –, servindo de suporte para a aplicação de regras tributárias as mais diversas – de sujeição passiva à base de cálculo.

Para além da Konfusion conceitual, quando descemos a análise das aplicações concretas do instituto, também há problemas, especialmente decorrentes da ausência de demonstração da conexão entre as causas da confusão patrimonial e o próprio fato gerador, ou mesmo com a extensão até o fim dos seus efeitos, para todos os reflexos tributários da unidade patrimonial apontada.

O tema, pela sua relevância e amplitude, merece ser tratado com rigor técnico, para que não se torne um lugar-comum, amorfo e obscuro, que possa ser utilizado indiscriminadamente para ampliar subjetiva e quantitativamente a relação jurídica tributária.

O post Confusão patrimonial na jurisprudência do Carf: <i>‘Eine große Konfusion’</i> apareceu primeiro em Consultor Jurídico.

BC passa a divulgar mensalmente indicadores de reajustes salariais negociados

Os reajustes salariais negociados por meio das convenções coletivas de trabalho passaram a contar com um novo conjunto de indicadores divulgados mensalmente pelo Banco Central (BC). Construídas a partir das informações registradas no Sistema de Negociações Coletivas de Trabalho (Mediador), do Ministério do Trabalho e Emprego, as séries ampliam o monitoramento das condições do mercado de trabalho e de sua relação com a dinâmica inflacionária. As informações estão em um boxe do Relatório de Política Monetária de setembro de 2026 e na Nota técnica 60​, ambos disponíveis no site do BC.

​Os indicadores reúnem informações sobre reajustes nominais e reais, participação das convenções com aumentos acima, abaixo ou iguais à inflação e quantidade de instrumentos coletivos utilizados nos cálculos. 

“Os indicadores construídos a partir das convenções coletivas oferecem uma visão abrangente dos reajustes negociados no setor privado formal. Os resultados mostram que a inflação passada continua sendo uma referência importante nas negociações e ajudam a avaliar como as condições do mercado de trabalho influenciam a dinâmica salarial no país”, afirmou Ricardo Sabbadini, Chefe do Departamento Econômico (Depec) do BC.

A nova base permite acompanhar com maior precisão o comportamento das negociações salariais no setor privado formal. De acordo com estudo do BC, publicado como boxe do Relatório de Política Monetária de setembro de 2026, os reajustes pactuados apresentam elevada aderência à inflação passada, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC). Embora não exista obrigação legal de reposição integral da inflação, os dados indicam que a variação dos preços continua sendo uma referência central para empregadores e trabalhadores durante as negociações coletivas.

A análise também evidencia que os resultados das negociações variam conforme as condições do mercado de trabalho. Entre 2012 e 2014 e novamente após 2023, períodos marcados por taxas de desocupação relativamente baixas, aumentou a participação de convenções com reajustes superiores à inflação. Os dados permitem ainda acompanhar potenciais diferenças entre setores econômicos. De forma geral, agropecuária, indústria, construção, comércio e serviços apresentaram trajetórias semelhantes ao longo do período analisado.

A divulgação regular dessas estatísticas amplia o conjunto de informações disponíveis para a análise do mercado de trabalho e de seus reflexos sobre a inflação, oferecendo à sociedade uma nova ferramenta para acompanhar a evolução dos salários negociados no país.

v2_box_reajustes_salariais_445222_2026_IMAGEM_NL02.jpg

Fonte: BC

Justiça Federal atualiza Plano Nacional de Inovação com andamento das ações de 2026

O documento reúne informações dos seis TRFs e permite acompanhar a execução das iniciativas previstas para 2026

O Conselho da Justiça Federal (CJF), por meio do Laboratório de Inovação (Ipê-Lab), consolidou e atualizou, na plataforma RenovaJud, dados, andamentos e evidências das ações que integram o Plano Nacional de Inovação da Justiça Federal — 2026.

A atualização reúne as informações encaminhadas pelos seis Tribunais Regionais Federais (TRFs), incluindo o estágio de desenvolvimento das iniciativas e as evidências das atividades realizadas ao longo de 2026. O registro permite acompanhar a evolução do Plano e dar visibilidade às ações desenvolvidas pelos Tribunais.

A sistematização das informações também fortalece a atuação integrada da Justiça Federal, ao facilitar o acompanhamento das iniciativas e o compartilhamento de conhecimentos e experiências entre os integrantes da Rede de Inovação.

Plano Nacional de Inovação

Elaborado de forma colaborativa pela Rede de Inovação da Justiça Federal, sob a coordenação do Ipê-Lab/CJF, o Plano constitui instrumento de atuação integrada entre o Conselho, os TRFs e seus laboratórios e núcleos de inovação. A iniciativa busca fortalecer a cultura de inovação, a transformação digital e o desenvolvimento institucional na Justiça Federal.

O Plano está alinhado à Resolução CNJ n. 395/2021, à Portaria CNJ n. 379/2024 e à Portaria CJF n. 829/2024, que instituiu a Rede de Inovação da Justiça Federal. As ações também integram as iniciativas desenvolvidas para o cumprimento da Meta Nacional n. 9 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

As ações nacionais integradas estão estruturadas no Eixo Organizacional, enquanto, no Eixo Processo Inovativo, os TRFs desenvolvem iniciativas de acordo com suas especificidades regionais, institucionais e estratégicas, observadas as diretrizes nacionais.

A versão atualizada do Plano Nacional de Inovação da Justiça Federal — 2026 está disponível na plataforma RenovaJud.

Fonte: CJF

BC moderniza apresentação de dados sobre intervenções cambiais

Com o objetivo de ampliar a transparência na divulgação de dados de intervenção cambial, o Banco Central (BC) passará a apresentar, na página de Política Cambial do seu site, o histórico de estoque e o cronograma de vencimentos das operações de Swap Cambial e de Linha com Recompra, dois dos instrumentos de intervenção disponíveis para assegurar o regular funcionamento do mercado de câmbio. A medida não altera o formato de divulgação dos leilões de câmbio, somente reorganiza informações já presentes no Portal de Dados Abertos do BC, oferecendo ao público uma forma direta de visualização.

Clique para acessar a página de Política Cambial.​

O Swap Cambial funciona como uma proteção financeira no mercado futuro, trocando a rentabilidade em dólar pela taxa Selic, sem alterar as reservas internacionais. Já a Linha com Recompra fornece dólares físicos diretamente no mercado à vista com o compromisso de recomprá-los no futuro, restabelecendo temporariamente a liquidez em moeda estrangeira das reservas do país.

A iniciativa traz avanços no acesso e na visualização dos dados e das informações. Se antes os usuários contavam com a tabela de vencimentos do Swap Cambial, agora, a Linha com Recompra passa a ter um espelho de tabela equivalente. As duas modalidades ganham cronogramas atualizados e uma ferramenta gráfica com histórico de estoques de dez anos, permitindo baixar dados e imagens em diferentes formatos.

Novas séries

Como suporte a essa modernização, a autoridade monetária incorporou ao Sistema Gerenciador de Séries Temporais (SGS) três novas séries de dados diários. Trata-se do acompanhamento de estoque de Linhas com Recompra (código 29722), valor nocional de Swap Cambial (código 29723) e número de contratos de Swap Cambial (código 29724).

“Ao consolidar e divulgar novas séries temporais relacionadas à Política Cambial, o BC simplifica o acesso à informação e reafirma seu compromisso com a transparência e a estabilidade econômica”, afirmou Nilton David, Diretor de Política Monetária.

Com a modernização na apresentação de dados sobre intervenções cambiais, o BC assegura maior acessibilidade a estas informações, conferindo maior transparência na condução da política cambial.

Fonte: BC

Manual prático para padronizar e redigir documentos no CJF é contemplado com o Selo Linguagem Simples 2026

Esta é a terceira vez consecutiva que o CJF recebe a honraria

O Conselho da Justiça Federal (CJF) foi contemplado com o Selo Linguagem Simples 2026, concedido pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), pelo projeto Manual Prático para Padronizar e Redigir Documentos e Publicações no Conselho da Justiça Federal. Desenvolvido pelo Centro de Revisão de Documentos e Publicações do Conselho (CEREVI), o Manual foi inscrito na premiação pelo Laboratório de Inovação do CJF (Ipê Lab). 

A publicação reúne diretrizes, modelos de documentos e orientações práticas para a elaborar expedientes administrativos e publicações institucionais, com foco na padronização, na clareza e na acessibilidade da informação. 

A iniciativa está alinhada ao Pacto Nacional do Judiciário pela Linguagem Simples e aos princípios da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) NBR ISO 24495-1:2024, que orientam a produção de textos mais claros, concisos, objetivos e acessíveis. O objetivo é contribuir para uma mudança na cultura de comunicação institucional, de modo que as informações produzidas pelo CJF sejam compreendidas tanto pelo público externo quanto pelo corpo funcional. 

Conheça o Manual 

O Manual Prático para Padronizar e Redigir Documentos e Publicações no Conselho foi concebido a partir da necessidade de unificar, simplificar e qualificar a produção documental e a comunicação administrativa no CJF. Entre os objetivos estão a padronização da redação oficial, a redução de ambiguidades e de retrabalho e a facilitação da compreensão dos documentos produzidos pelas unidades. 

Um dos recursos de destaque é o quadro de substituição de termos, elaborado a partir de documentos revisados pelo CEREVI. A ferramenta apresenta expressões consideradas rebuscadas e alternativas mais simples para seu uso no cotidiano institucional.  

Outro diferencial da iniciativa é a inclusão de orientações para o uso ético da inteligência artificial (IA) como ferramenta de apoio à produção e à revisão de textos institucionais. O Manual estabelece a necessidade de curadoria humana e orienta sobre cuidados relacionados à proteção de dados e à segurança institucional, incluindo a recomendação de não inserir minutas inéditas ou dados pessoais em plataformas comerciais de IA on-line. 

Na proposta apresentada ao CNJ, o CJF destaca que a implementação do Manual e a ampliação de suas frentes de divulgação já contribuíram para a redução do uso de expressões arcaicas e prolixas, a padronização de modelos no Sistema Eletrônico de Informações (SEI) e a utilização da publicação pelo corpo funcional como ferramenta de consulta. 

Para a diretora do CEREVI, Lucinda Siqueira Chaves, “a concretização da edição deste Manual representa uma grande conquista institucional e uma profunda realização pessoal. O meu maior propósito, ao liderar este projeto, foi deixar uma contribuição ao CJF que pudesse, na prática, ajudar todo o corpo funcional a redigir melhor, simplificar rotinas e sanar dúvidas do dia a dia”.  

Ela firma, ainda, que o intuito é que a publicação seja um guia para estruturar documentos, além de padronizar os expedientes de forma clara e segura. “Ver este Manual consolidado, alinhado aos princípios da Linguagem Simples e à busca permanente pela excelência, traz a certeza de ter cumprido o meu papel de transformar a escrita utilizada no CJF em um instrumento de eficiência e cidadania”, discorre.  

Prêmio de Linguagem Simples 

A premiação integra o Pacto Nacional do Judiciário pela Linguagem Simples, que incentiva o uso de uma linguagem acessível em atos administrativos, decisões judiciais, comunicações institucionais e materiais informativos produzidos pelo Judiciário. A certificação reconhece órgãos do Poder Judiciário que adotam práticas de comunicação claras, diretas e compreensíveis, com o objetivo de ampliar o acesso da sociedade às informações institucionais.  

Segundo a diretora de divisão do Ipê Lab, Rosa Miriam Farias Prysthon, o reconhecimento reforça o trabalho desenvolvido pelo Conselho para aprimorar a comunicação pública. “A premiação chancela as ações do CJF para tornar a comunicação institucional mais clara, acessível e direta, reafirmando o compromisso deste Conselho com a transparência e o Direito Visual.”, afirmou. 

Esta é a terceira vez consecutiva que o CJF recebe a honraria. O Órgão já foi reconhecido em 2024 e 2025 por uma série de ações desenvolvidas pelas áreas do CJF. Este ano, a cerimônia de premiação dos contemplados está prevista para 18 de novembro, às 14 horas, no auditório do CNJ. 

Acesse o Manual Prático para Padronizar e Redigir Documentos e Publicações no CJF. 

Fonte: CJF

Pix e TIPS: parceria entre Brasil e Europa abre caminho para pagamentos globais instantâneos

O Banco Central do Brasil (BC) e o Banco Central Europeu (BCE) deram um passo importante na evolução dos pagamentos instantâneos ao iniciar a fase de avaliação da viabilidade de interligação entre o Pix e o TARGET Instant Payment Settlement (TIPS), infraestrutura europeia de liquidação instantânea de pagamentos. A iniciativa foi anunciada em 24 de setembro e marca o início de estudos conjuntos sobre aspectos técnicos, operacionais, jurídicos e de negócio necessários para conectar as duas plataformas de pagamento instantâneo.

A avaliação reflete a crescente relevância dos pagamentos digitais em escala global e o reconhecimento internacional do Pix como uma das mais bem-sucedidas infraestruturas de pagamentos instantâneos do mundo. Operado pelo BC, o sistema processa aproximadamente 250 milhões de transações por dia, com liquidação em tempo real diretamente em moeda de banco central. Já o TIPS foi desenvolvido pelo Eurosistema para permitir a liquidação imediata de pagamentos em moedas europeias, operando atualmente com o euro, a coroa sueca e a coroa dinamarquesa.​

“A avaliação da interligação entre Pix e TIPS representa uma oportunidade de aproximar duas infraestruturas públicas de referência em pagamentos instantâneos. O objetivo é explorar caminhos para tornar pagamentos transfronteiriços mais rápidos, eficientes, acessíveis e convenientes para cidadãos e empresas dos dois lados do Atlântico”, destacou Gilneu Francisco Astolfi Vivan, Diretor de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução do Banco Central.

Caso a interligação se mostre viável, brasileiros e europeus poderão se beneficiar de transferências internacionais mais rápidas, eficientes e potencialmente menos custosas. A expectativa é que remessas internacionais e pagamentos de compras possam ser realizados com disponibilização dos recursos na moeda local do destinatário em poucos segundos, eliminando parte das barreiras tradicionalmente associadas às operações transfronteiriças.

A iniciativa integra a agenda evolutiva do Pix e os esforços do BC para ampliar a interoperabilidade do sistema brasileiro com infraestruturas de pagamento de outras jurisdições. Mais do que uma conexão bilateral, o projeto está alinhado com um movimento internacional voltado à construção de uma rede global de pagamentos instantâneos. Segundo o BCE, os trabalhos relacionados ao TIPS incluem iniciativas de conexão com outras infraestruturas, como o Nexus Global Payments; o sistema de pagamentos instantâneos da Índia (UPI); e a infraestrutura instantânea da Suíça.

A aproximação também responde à intensidade dos fluxos econômicos e financeiros entre o Brasil e os países da área do euro, que devem ganhar novo impulso com o recente Acordo de Parceria entre o Mercosul e a União Europeia. Ao permitir maior integração entre os sistemas, a medida pode contribuir para reduzir custos, aumentar velocidade, ampliar o acesso e melhorar a transparência dos pagamentos internacionais. Esses objetivos estão em linha com o Plano de Ação do G20 para o aprimoramento dos pagamentos transfronteiriços, iniciativa que busca tornar essas operações mais rápidas, baratas, transparentes e acessíveis em todo o mundo.

A avaliação conjunta representa mais um capítulo da trajetória de inovação do Pix, que, desde seu lançamento, vem ampliando funcionalidades e consolidando sua posição como infraestrutura estratégica para a transformação digital do sistema financeiro brasileiro. Ao mesmo tempo, o projeto reforça o papel do Brasil nas discussões internacionais sobre integração de sistemas de pagamentos e modernização das transferências globais de recursos.

Clique​ para acessar o comunicado do BCE.

Fonte: BC

O administrador judicial e a inteligência artificial: governança e responsabilidade

Recuperações judiciais e falências são, em larga medida, processos de gestão de informação. Centenas ou milhares de credores, habilitações e divergências, demonstrativos contábeis mensais, planos e aditivos, bens dispersos e ações em diversos juízos convergem para um mesmo profissional: o administrador judicial (AJ). A Lei 14.112/20 intensificou essa carga ao impor prazos curtos, publicidade eletrônica e o dever expresso de verificar a veracidade das informações prestadas pelo devedor. Nesse cenário, a inteligência artificial (IA) deixa de ser tema especulativo e passa a ser questão de efetividade processual. A pergunta é em que medida, e sob quais condições, o AJ pode incorporá-la à rotina sem desnaturar uma função que a lei construiu como pessoal, fiduciária e responsável. A resposta aqui sustentada é que a IA pode ser utilizada como ferramenta auxiliar de natureza técnico-operacional, desde que empregada sob supervisão humana, com transparência, proteção de dados, possibilidade de auditoria e sem transferência da responsabilidade funcional que a Lei 11.101/05 atribui ao AJ.

Uma função pessoal e responsável

O AJ é auxiliar do juízo, nomeado na decisão que defere o processamento da recuperação judicial (artigo 52, I) ou na sentença de falência (artigo 99, IX), e investido mediante termo de compromisso (artigo 33). Não representa o devedor nem os credores: age “sob a fiscalização do juiz e do Comitê” (artigo 22, caput), orientado ao interesse coletivo que a lei tutela — a preservação da empresa viável (artigo 47) e a otimização dos ativos na liquidação (artigo 75). Ainda quando a função é exercida por pessoa jurídica, deve ser indicado o profissional responsável, que não pode ser substituído sem autorização judicial (artigo 21, parágrafo único). Há sempre um ser humano identificado que responde pela função.

A Lei 14.112/20 ampliou o rol do artigo 22 em duas direções. Na informacional, passou a exigir sítio eletrônico com informações atualizadas e acesso às peças principais, endereço eletrônico para habilitações e divergências, resposta a ofícios de outros juízos em até 15 dias e relatório sobre o plano em até 15 dias de sua apresentação. Na valorativa e fiscalizatória, impôs que o relatório mensal verifique a veracidade e a conformidade das informações do devedor, que o AJ fiscalize as tratativas com credores, impeça expedientes dilatórios, zele pela boa-fé nas negociações, informe as condutas do artigo 64 e estimule a conciliação e a mediação. Na falência, fixou o prazo de 180 dias para a venda dos bens.

O regime de responsabilidade confirma o caráter pessoal do encargo. O AJ responde por dolo ou culpa pelos prejuízos causados à massa, ao devedor ou aos credores (artigo 32), pode ser destituído por negligência ou descumprimento de deveres (artigo 31) e perde a remuneração se destituído ou se tiver as contas desaprovadas (artigo 24, § 3º). O legislador vinculou a função a um sujeito que pode ser escolhido, fiscalizado, responsabilizado e afastado. É esse sujeito, e não as ferramentas que utiliza, o destinatário da responsabilidade funcional.

Especialização, agora também tecnológica

O artigo 21 não reserva a função a uma categoria profissional: indica preferências e admite a pessoa jurídica especializada. Nenhuma formação isolada cobre as competências do artigo 22, que reúnem direito material e processual, contabilidade, finanças, avaliação de ativos, gestão e negociação. A especialização decorre da capacidade de articular esses saberes no caso concreto, e três fatores recentes a tornaram mais aguda: a densificação normativa trazida pela Lei 14.112/20 (consolidação processual e substancial, financiamento DIP, mediação), a padronização dos relatórios pela recomendação CNJ 72/20, que expõe a atuação à comparação, e a internacionalização da insolvência (artigos 167-A a 167-Y).

Soma-se um quarto fator: a competência tecnológica. O AJ que mantém sítio eletrônico, recebe habilitações por meio digital e processa grandes volumes de dados contábeis já atua em ambiente informacional. Saber escolher, configurar, supervisionar e auditar ferramentas de IA passa a integrar a especialização. Não se trata de tornar-se engenheiro de software, mas de avaliar criticamente o que a ferramenta produz — exatamente como já se espera que o AJ avalie o laudo do perito contábil que mantém na equipe ou que contrata (artigo 22, I, “h”). A especialização é pressuposto da boa integração tecnológica, e não sua “vítima”: quanto mais qualificado o profissional, mais apto a reconhecer o erro da máquina.

A moldura de Luciano Floridi

Para organizar o problema, adota-se o artigo “Soft ethics, the governance of the digital and the General Data Protection Regulation”, de Luciano Floridi (2018). O autor parte da constatação de que já não vivemos online ou offline, mas onlife, numa infosfera em que analógico e digital se integram sem costura. A revolução digital já ocorreu; o desafio deixou de ser a boa inovação e passou a ser a boa governança do digital. O processo de insolvência eletrônico, com autos digitais, habilitações por e-mail e assembleias virtuais, é exemplo desse ambiente.

A questão não é se a IA entrará nele, mas como será governada.

O núcleo do artigo é a distinção entre três abordagens complementares. A governança digital é a prática de estabelecer políticas, procedimentos e padrões para o uso adequado da infosfera, incluindo qualidade, segurança e acesso aos dados e a identificação de responsabilidades. A regulação digital é o sistema de leis que disciplina a conduta dos agentes e molda a governança pela via da conformidade. A ética digital avalia os problemas morais relativos a dados, algoritmos e práticas correspondentes, influenciando as outras duas pelo critério do socialmente aceitável ou preferível.

A tese central é que a conformidade legal é necessária, mas insuficiente: a regulação indica quais “lances do jogo” são legais, mas nada diz sobre quais são os melhores entre eles. Esse espaço é o da soft ethics, uma ética pós-conformidade que atua além da lei sem contrariá-la, delimitada pela factibilidade, pela legalidade e pelos direitos humanos. Floridi aponta ainda três desvios a evitar — o mau uso, o subuso e o uso nocivo — e sustenta que a abordagem ética oferece dupla vantagem, como estratégia de oportunidade e como gestão de riscos, desde que haja confiança pública, responsabilidades claras e abertura sobre como as tecnologias operam. A ética, conclui, não pode ser a coruja de Minerva que só alça voo ao anoitecer: deve acompanhar a adoção da tecnologia desde o início.

Transposta à administração judicial, a moldura organiza o problema em três níveis: a regulação é dada pela Lei 11.101/05, pela LGPD e, como parâmetro, pelos atos do CNJ; a governança corresponde aos procedimentos pelos quais o AJ escolhe, usa e controla as ferramentas; e a soft ethics orienta as escolhas que a lei não disciplina.

Onde a IA ajuda — e o que permanece com o AJ

Os usos possíveis acompanham a sequência do processo. Na verificação de créditos (artigos 7º e 9º), a IA pode extrair dados das habilitações recebidas por e-mail, confrontá-las com a relação do devedor e a escrituração, sinalizar duplicidades, sugerir classificação e calcular a atualização; a decisão sobre existência, valor e classificação de cada crédito, e a assinatura da relação, seguem com o AJ. No relatório mensal, pode ler balancetes e fluxos de caixa, montar séries históricas, detectar variações atípicas e pagamentos a partes relacionadas e redigir minuta no padrão do CNJ; atestar veracidade e informar condutas do artigo 64 é ato do AJ.

No exame do plano e de aditivos, a ferramenta compara versões, localiza cláusulas sensíveis — prazo trabalhista, tratamento desigual na mesma classe, liberação de garantias — e simula o fluxo de pagamentos, mas o relatório sobre o plano é do AJ. Na assembleia geral, confere credenciamentos e apura quóruns em tempo real, enquanto a presidência e a decisão de incidentes permanecem humanas. No sítio eletrônico, um assistente identificado como IA e restrito a documentos públicos pode responder dúvidas procedimentais, sem orientar sobre créditos. Há ganhos também na triagem e no controle do prazo de ofícios, na catalogação de bens e no controle dos 180 dias para a venda, na montagem da linha do tempo das operações no termo legal para o relatório sobre as causas da falência, no monitoramento de processos em que o falido é parte e na tradução de documentos na insolvência transnacional.

Três observações decorrem desse quadro. Primeiro, em todos os casos a IA atua sobre a preparação do ato, não sobre o ato. Segundo, os maiores ganhos estão justamente nas tarefas que a Lei 14.112/20 tornou mais exigentes em prazo, de modo que a IA é instrumento de cumprimento dos próprios deveres legais. Terceiro, a verificação humana não é formalidade: ferramentas generativas podem produzir dados, cálculos e citações incorretos ou inexistentes, risco especialmente grave em cálculos de crédito e referências a jurisprudência.

Regulação: o que a lei já exige

A Lei 11.101/05 não trata de IA, mas fixa o núcleo intransferível da função. A contratação de profissionais ou empresas especializadas depende de autorização judicial (artigo 22, I, “h”). Uma ferramenta de software usada pelo próprio AJ, a seu custo, não parece ser “auxiliar” nesse sentido; mas, se o serviço for custeado pela massa ou prestado por terceiro que processe os dados do caso, a autorização se impõe.

A LGPD (Lei 13.709/2018) também incide. O tratamento de dados em procedimentos desta natureza encontra base no cumprimento de obrigação legal e no exercício regular de direitos em processo judicial (artigo 7º, II e VI), mas segue sujeito aos princípios do artigo 6º e ao dever de segurança do artigo 46. O titular tem direito à revisão de decisões tomadas unicamente com base em tratamento automatizado (artigo 20) — mais uma razão para que nenhum ato do AJ que afete credores seja produto exclusivo da máquina.

A Resolução CNJ 615/25, que revogou a Resolução 332/20, disciplina o uso de IA pelo próprio Poder Judiciário e não vincula diretamente o AJ, mas serve de parâmetro interpretativo para um auxiliar da Justiça. Entre seus princípios estão a supervisão humana, ressalvado o uso como ferramenta auxiliar em serviços acessórios ou procedimentais e como suporte à decisão, a proteção de dados e do segredo de justiça (artigo 3º, V e VIII); exige ainda que os sistemas permitam supervisão e modificação de qualquer produto gerado (artigo 34). A distinção entre uso auxiliar e uso decisório é exatamente a que se propõe transpor para a administração judicial.

Quanto ao marco legal da IA, o PL 2.338/23, aprovado pelo Senado em dezembro de 2024, aguardava, em setembro de 2026, parecer do relator na Comissão Especial da Câmara dos Deputados. A lacuna reforça o papel da governança e da ética.

Governança: as cinco condições como protocolo

Na governança, as condições da tese convertem-se em medidas verificáveis.

A supervisão humana significa revisão integral de todo produto da IA por profissional identificado, com conferência de cálculos e citações nas fontes originais, e nenhum documento protocolado sem essa revisão. A transparência pede política de uso de IA publicada no sítio do AJ, menção nos relatórios às tarefas em que houve apoio da ferramenta e identificação dos assistentes virtuais como tais. A proteção de dados exige ferramentas com contrato que vede o uso dos dados para treinamento, minimização e anonimização quando possível, controle de acesso e registro das operações. A auditabilidade supõe rastreabilidade entre cada conclusão e o documento de origem, registro da ferramenta e da versão utilizadas e cálculos em planilhas com fórmulas visíveis, reprodutíveis pelo juízo e pelos credores.

A quinta condição, a não transferência da responsabilidade, dá sentido às demais. O erro da ferramenta é erro do AJ, e a IA não pode ser invocada como excludente de culpa. Floridi inclui a identificação de responsabilidades na própria definição de governança; na administração judicial, essa identificação já foi feita pela lei. Por isso cabe ao AJ escolher, configurar e controlar as ferramentas, e a escolha de ferramenta inadequada, ou a falta de revisão de seu produto, pode configurar a culpa do artigo 32.

Além do que a lei exige

Há escolhas que nenhuma norma impõe e que, no entanto, definem o bom uso da IA: informar os credores sobre o uso da tecnologia mesmo sem exigência legal; recusar ferramentas cujo funcionamento não possa ser explicado ao juízo e aos interessados; usar a economia de tempo para aprofundar a análise, e não para reduzi-la; e cuidar para que a automação não afaste o AJ do contato direto com a empresa, seus trabalhadores e credores.

A soft ethics impõe também o lado inverso: o dever de não subutilizar a tecnologia quando ela pode tornar o processo mais rápido, barato e transparente. Recusar esses ganhos não é prudência neutra.

Conclusão

A Lei 11.101/05, sobretudo após a Lei 14.112/20, estruturou o administrador judicial como função pessoal, fiduciária e responsável, que combina tarefas informacionais de grande volume com atos de juízo, fiscalização e representação. A essa especialização multidisciplinar soma-se hoje à competência tecnológica. A moldura de Floridi mostra que a pergunta não se esgota na legalidade: cumprir a Lei 11.101/05, a LGPD e os parâmetros do CNJ é necessário, mas insuficiente. Cabe ao AJ governar o uso da ferramenta e fazer as melhores escolhas entre as permitidas, evitando tanto o mau uso quanto o subuso. Observadas essas condições, a IA deixa de ser ameaça à função e passa a ser instrumento de sua efetividade.


Referências

BRASIL. Lei nº 11.101, de 9 de fevereiro de 2005. Regula a recuperação judicial, a extrajudicial e a falência do empresário e da sociedade empresária. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 9 fev. 2005.

BRASIL. Lei nº 13.709, de 14 de agosto de 2018. Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD). Diário Oficial da União, Brasília, DF, 15 ago. 2018.

BRASIL. Lei nº 14.112, de 24 de dezembro de 2020. Altera as Leis nº 11.101/2005, 10.522/2002 e 8.929/1994. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 24 dez. 2020.

CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA. Resolução nº 615, de 11 de março de 2025. Estabelece diretrizes para o desenvolvimento, utilização e governança de soluções desenvolvidas com recursos de inteligência artificial no Poder Judiciário. Brasília: CNJ, 2025.

FLORIDI, Luciano. Soft ethics, the governance of the digital and the General Data Protection Regulation. Philosophical Transactions of the Royal Society A, v. 376, 20180081, 2018. DOI: 10.1098/rsta.2018.0081.

O post O administrador judicial e a inteligência artificial: governança e responsabilidade apareceu primeiro em Consultor Jurídico.

Nota de alerta
Prevenção contra fraudes com o nome do escritório Aragão & Tomaz Advogados Associados